Em maio de 2026, equipes da UTFPR e da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar) concluíram a instalação de 45 sensores de material particulado em postes de iluminação pública de três bairros periféricos de Curitiba. Os dispositivos, chamados internamente de NanoAir-P, medem concentração de PM2.5 e PM10 a cada cinco minutos e transmitem dados via rede LoRaWAN para um painel aberto acessível em qualidade-ar.curitiba.pr.gov.br.
Como funciona o NanoAir-P
Cada unidade ocupa caixa de policarbonato de 8 × 6 × 4 cm, fixada a aproximadamente 3,5 metros de altura no poste. O elemento sensível é um filme de nanofibras de dióxido de titânio (TiO₂) depositado sobre eletrodo de ouro por electrospinning. Quando partículas se depositam sobre as fibras, alteram a impedância elétrica do filme — variação convertida em concentração por algoritmo calibrado contra equipamento de referência GRIMM EDM 180.
A calibração foi feita durante três meses no campus da UTFPR, comparando leituras do protótipo com estação fixa do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). A correlação para PM2.5 ficou em R² = 0,87 — inferior a analisadores laser de referência, mas adequada para monitoramento de tendência e alertas, segundo o projeto.
Cobertura e lacunas identificadas
Curitiba possui seis estações fixas de qualidade do ar operadas pelo IAT, concentradas no eixo Centro-Batel-Rebouças. Os bairros escolhidos para o piloto — Tatuquara, Cidade Industrial e Boqueirão — ficam a 8 a 15 km das estações mais próximas, distância que, segundo modelagem atmosférica da equipe, pode gerar diferenças de concentração de até 35% em dias de baixa ventilação.
Os primeiros 60 dias de operação confirmaram essa hipótese. Em três ocasiões, sensores de Tatuquara registraram picos de PM2.5 acima de 45 µg/m³ — limiar da OMS para exposição de 24 horas — enquanto a estação do Centro indicava valores abaixo de 25 µg/m³. A diferença correlacionou-se com queima de resíduos agrícolas na região metropolitana, fenômeno que estações centrais não captaram.
Descobrimos que Tatuquara tem microclimas de poluição que ninguém estava medindo. Isso muda prioridades de política pública — não basta olhar o dado do Centro.
Privacidade e infraestrutura urbana
Os sensores não capturam imagem, áudio ou identificadores pessoais — apenas concentração de particulados, temperatura e umidade. A transmissão LoRaWAN usa criptografia AES-128 e os dados são agregados por poste, sem geolocalização precisa de indivíduos. A Celepar confirmou conformidade com a LGPD e publicou relatório de impacto à proteção de dados (RIPD) do projeto.
A escolha de postes de iluminação como infraestrutura de hospedagem reduz custo de instalação — cada unidade custou R$ 1.200, incluindo sensor, módulo LoRaWAN e caixa de proteção, contra R$ 80.000 a R$ 150.000 de uma estação fixa convencional. A alimentação vem da rede elétrica do poste, com bateria de backup para 48 horas.
Expansão e limitações
A prefeitura avalia expandir a rede para 200 unidades até 2027, cobrindo todos os 75 bairros da cidade. A expansão depende de edital de R$ 2,4 milhões do Fundo Municipal de Meio Ambiente, em tramitação desde abril.
Limitações permanecem. Sensores de baixo custo não substituem equipamentos de referência para fins legais de fiscalização — servem para monitoramento complementar e engajamento cidadão. Manutenção periódica, incluindo limpeza do filtro sensível e recalibração semestral, é necessária para evitar deriva de leitura.
Para a Nano Brasil, o projeto Curitiba representa a convergência entre nanomateriais, IoT e equidade urbana — tema que acompanhamos de perto conforme outras cidades brasileiras, como Belo Horizonte e Fortaleza, iniciam pilotos semelhantes.