No terceiro andar do bloco C do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, uma UTI de 12 leitos abrigou, entre março e junho de 2026, um experimento que pode mudar a rotina de monitoramento de pacientes críticos. Trinta voluntários — todos adultos com consentimento informado e aprovação do comitê de ética CEP-HCFMUSP 4.123/2025 — receberam um adesivo flexível no antebraço capaz de medir lactato a cada cinco minutos, sem coleta venosa repetida.
A tecnologia por trás do adesivo
O dispositivo foi desenvolvido no Laboratório de Nanomateriais Funcionais do Instituto de Química da USP, coordenado pela professora Helena Ribeiro. A estrutura base é um filme de poli(tereftalato de etileno) de 50 micrômetros, sobre o qual são depositados nanofios de óxido de zinco (ZnO) por crescimento hidrotermal a 90 °C. Os fios, com diâmetro médio de 80 nanômetros e comprimento de 2 a 5 micrômetros, funcionam como eletrodo de trabalho em uma configuração de três eletrodos miniaturizada.
A detecção eletroquímica de lactato baseia-se na oxidação catalítica mediada por lactato oxidase imobilizada na superfície dos nanofios. A enzima converte lactato em piruvato, gerando corrente proporcional à concentração do analito. O sinal é amplificado por um circuito integrado montado sobre flex PCB e transmitido via Bluetooth Low Energy para um tablet na cabeceira do leito.
Protocolo piloto e primeiros resultados
O protocolo clínico, desenhado em parceria com a equipe de medicina intensiva liderada pelo Dr. Ricardo Mendonça, prevê comparação entre leituras do biosensor e amostras de sangue venoso coletadas nas mesmas janelas temporais. Os primeiros 15 pacientes incluídos apresentaram correlação de Pearson de 0,91 entre os dois métodos — resultado considerado promissor, embora a amostra ainda seja pequena para conclusões definitivas.
Três situações clínicas motivaram o estudo. Sepse, com lactato persistentemente elevado apesar de reposição volêmica. Choque cardiogênico, em que o lactato sobe antes da queda de pressão arterial se tornar evidente. E pós-operatório de cirurgia cardíaca, quando o metabolismo anaeróbico pode indicar baixo débito cardíaco precoce.
Em dois casos, o biosensor sinalizou elevação de lactato até 40 minutos antes da equipe solicitar nova gasometria arterial. Não provamos impacto em desfecho ainda, mas isso já muda a conversa na beira do leito.
Desafios de escala e regulação
Apesar do entusiasmo clínico, o caminho até uso rotineiro é longo. A ANVISA classifica o dispositivo como produto para saúde de classe II, exigindo registro com evidência de segurança e eficácia em estudo clínico randomizado — fase que a equipe estima iniciar em 2027, dependendo de financiamento FAPESP.
Outros obstáculos são técnicos. A lactato oxidase perde atividade após cerca de 72 horas de uso contínuo, exigindo troca do adesivo. Interferentes como acetaminofeno e áscorbato podem distorcer leituras em concentrações terapêuticas. E a calibração individual — necessária porque a taxa de difusão de lactato pela pele varia entre pacientes — ainda depende de pelo menos uma coleta venosa de referência.
Perspectivas e próximos passos
A professora Ribeiro planeja expandir o repertório de analitos. Protótipos preliminares detectam glicose e cortisol com limites semelhantes, abrindo possibilidade de monitoramento metabólico mais amplo. Paralelamente, o grupo negocia parceria com a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) para produção em escala piloto dos nanofios.
Para a Nano Brasil, este caso ilustra o padrão que vemos repetir no país: pesquisa de ponta em universidade pública, validação clínica em hospital de referência, e uma lacuna significativa entre protótipo funcional e produto regulado disponível no SUS ou no mercado privado. Acompanhamos o protocolo e publicaremos atualizações conforme novos pacientes forem incluídos e dados consolidados.